“A Despedida” (1ª parte)

Com a saída de Judas, Jesus sabia que dispunha de pouco tempo. Nunca tinha saído ao encontro dos sinedritas* para desafiá-los, dizendo: ‘façam de mim o que quiserem’. Ele sempre procurou refugiar-se.

Quando Judas desapareceu nas sombras da traição Jesus começou a sentir as garras da iminente morte, no meio da desagregadora tensão interior, onde poderia instaurar sua forma de provocar uma relação com os que dariam continuidade ao seu ministério.
Judas1Foi neste clima que o banquete pascoal se transformou numa reunião de angustiantes recomendações e indícios de amarga despedida.
O ritual da costumeira reunião diz que atrevidamente foi rasgado pelas mãos de Judas que joga ao vento a memória do amado Mestre.
Ao lavar os pés dos discípulos, o Cordeiro de Deus manifesta a doçura do seu coração – recomendando que assim procedessem seus discípulos [seguidores].
Depois de oferecer o cálice (sumo transbordante da videira) Jesus insiste em fazer os discípulos lembraram-se que tal ato deveria ser feito em memória dele, por ser a nova aliança no seu sangue derramado por muitos.
Penso que o Cristo transcende todas as marcas do tempo para instaurar as marcas da sua preciosa graça, imputando o que abrangeria o mais profundo do ser humano.
Entendo que Deus está anunciando que toda existência humana tende a dobra-se sobre si mesma, num inquietante círculo de egoísmo.
Ele mesmo transformou a escravidão e a angústia em alegria plena.
sangue_umbrais_portaOs antigos não esqueceriam os umbrais das portas aspergidas, bem como um acentuado número de sacrifícios foram realizados pelos sacerdotes.
Agora, diria Jesus, esse pacto foi selado: ‘Ofereci meu sangue no cálice que meu Pai me deu’.
‘Lembrem-se de mim (pela morte) sempre que se reunirem para partilhar os atos da sublimidade da fé, e eu estarei convosco até a consumação dos séculos.’
É impossível esquecer que os pés do Mestre amado:
a) Percorreram as rotas do pó; serpenteadas sobre os montes, hora verdes, hora acinzentados pela estiagem;
b) Anunciando a aurora das novas fronteiras, anunciando os vastos espaços da misericórdia;
c) Assentou-se à sombra dos corações para derramar óleo nas feridas das almas dos dilacerados nos fracassos da vida, colhendo com braços de perdão, sabendo que o amor acabaria vencendo a resistência do ódio.
É possível que Jesus – como homem – conhecesse muito bem os motivos da traição de Judas.
(Continuaremos na próxima semana)

Pr. Samuel Dionísio de Veras

Nota de rodapé: (*) Sinedrita: Integrante do Sinédrio - Entre os antigos judeus, tribunal, em Jerusalém, formado por sacerdotes, anciãos e escribas, o qual julgava as questões criminais ou administrativas referentes a uma tribo ou a uma cidade, os crimes políticos importantes, etc. 

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