“A base de tudo” – Jetro F. Damasceno

Muito se tem dito que a família é a célula-mater ou a célula-tronco da sociedade. Isto é, a célula primitiva que dá origem a outros tipos de células. De fato, a família é o primeiro grupo social do qual fazemos parte. Em contrapartida, nunca se falou tanto em decadência social, falência institucional e declínio dos valores espirituais, morais e éticos como nos últimos anos. Assim, convém refletirmos um pouco sobre o estado dessa célula-mater. John MacArthur escreveu que “Talvez sejamos testemunhas da morte da célula básica de toda civilização, a família”. Cremos que ela não vai morrer por ser, única e exclusivamente, projeto de Deus, não de homens – embora tenhamos assistido indícios do seu adoecimento: divórcio, aborto, infidelidade, homossexualidade, homoafetividade familiar, disfuncionalidade familiar, isto é, inversão dos papéis familiares etc.

passos e floresUm dos princípios bíblicos para a família em todos os tempos e em todas as culturas é, sem sombra de dúvida, o princípio da autoridade. Encontramos na Bíblia relatos sobre os homens de Deus que tiveram dificuldades em exercer tal princípio diante de seus filhos – como o sacerdote Eli e o rei Davi – que não disciplinaram, respectivamente, seus filhos Hofni e Fineias e Absalão. Como consequência, tiveram sérios transtornos de comportamento. Embora vivamos na era da pós-modernidade ou da hiper-modernidade, que prega o liberalismo (liberdade sem limites), o relativismo (não há verdade absoluta), o individualismo e o secularismo, quando os valores mundanos são colocados acima dos espirituais, temos que resgatar os valores bíblicos e considerá-los como antídoto para restaurar a sociedade.

MãosOs pais são autoridades legítimas do lar, instituídas pelo próprio Deus, sendo dignos de honra e de obediência, de acordo com Sua Palavra. É necessário não confundirmos ‘exercer autoridade’ com ‘ser autoritário’. Ter autoridade implica desfrutar de alguma forma de comando, de liderança e exercer o direito de se fazer obedecer, o que gera respeito. Ser autoritário implica em exagero, o uso desproporcional da força ou do poder, o fim do diálogo – que levam ao medo. Segundo o psicólogo Erich Fromm, para adquirir uma personalidade religiosa sadia e equilibrada, a criança precisa ter dois tipos de consciência:

  • Consciência autoritária – de acordo com o estudioso, é uma espécie de “voz de uma autoridade externa que foi internalizada” (os pais). Essa consciência é fundamental para o ajustamento pessoal da criança na sociedade, quer em relação ao seu desejo de reconhecimento, como à descoberta do seu lugar na sociedade.
  • Consciência humanística – Para Fromm, esta consciência é “constituída de elementos espontaneamente desenvolvidos pelo próprio indivíduo, apropriados às suas habilidades e essenciais a sua criatividade”. A criança deve desenvolver essas consciências de modo harmonioso. A palavra de Deus exorta os pais a criarem os filhos na disciplina e admoestação do Senhor (Ef. 6:4; Pv. 22:6; Dt. 6:5-9). Concluímos que se a criança aprender a respeitar os pais como autoridade instituída pelo próprio Deus, certamente não terá dificuldades em se submeter à autoridade do professor, dos líderes eclesiásticos, políticos etc.

Temos observado em muitos lugares que a ausência paterna tem sido um dos maiores problemas, não apenas na família, mas na sociedade como um todo. Na escola, os professores ficam reféns dos alunos; os pastores são constrangidos pelos membros da igreja, os pais, subordinados aos filhos, e por aí caminha a sociedade.

familia-por-do-solO pai da psicanálise, Sigmund Freud, reproduziu o que Salomão já escrevera há muitos séculos: que, a educação dos filhos, para ser equilibrada, depende de duas funções: a paterna e a materna: “Filho meu, ouve o ensino de teu pai e não deixes a instrução de tua mãe” (Pv. 1:8). A presença paterna é diferente, porém, complementar à materna. Vemos que a autoridade na família é representada pelo pai, que simbolizava a lei, o mandamento, as regras; e que tem a responsabilidade de ensinar. A presença da mãe, não menos importante, simbolizava a afetividade, o carinho e as recompensas. Essas duas funções geram no indivíduo segurança, equilíbrio emocional e o desenvolvimento de uma personalidade sadia, com todas as condições para se relacionar com o outro de modo saudável: a monoparental (quando apenas um dos pais assume a responsabilidade da educação dos filhos); a família recomposta (pais, em um novo relacionamento, convivendo com filhos de relacionamento anterior); e a chamada homoafetiva (formada pela união de pessoas do mesmo sexo), que contraria totalmente o que Deus planejou. A inversão, ou a ausência das funções parentais na família, tem sido uma das causas de muitos males na sociedade de hoje. Se os pais assumissem mais a paternidade responsável dos filhos, muitos problemas seriam evitados ou amenizados. O comportamento dos filhos, muitas vezes, indica a forma como os pais agiram sobre determinado assunto. Pais que não dialogam com os filhos educam-nos para o silêncio, enquanto que os pais que dialogam com eles educam-nos para a discussão. Temos observado, no âmbito escolar, mesmo entre alguns adolescentes, a alegria velada em saber que o pai está participando da reunião de pais promovidos pela escola. Precisamos assimilar a idéia de autoridade como algo outorgado por Deus e que só Ele tem os recursos dos quais devemos nos servir para criar nossos filhos, a herança dele, com sabedoria e integridade – e sempre dependendo da graça de Deus. Que Deus nos abençoe, como pais, de modo que nossos lares sejam canais de bênção para a sociedade.

Jetro Ferreira Damasceno

O Texto acima foi publicado no Boletim nº 1.021, de 03/05/2015

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